quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Estudo das religiões: Judaísmo - 2



Um povo culto, porém perseguido

Em várias ocasiões os judeus assumiram um papel de liderança nos países onde se estabeleceram. A cultura judaica conheceu um apogeu na Espanha dos séculos XII e XIII. Aí um de seus maiores filósofos foi o rabino Moisés ben Maimón (Maimônides), que escreveu várias obras e resumiu os ensinamentos judaicos nos Treze princípios da fé judaica. Nesse país floresceu também o misticismo judaico, a cabala (ou "tradição").

Contudo, desde a Baixa Idade Média até hoje os judeus vêm sofrendo perseguições. Em diversos períodos a sociedade cristã os acusou pelo assassinato de Jesus e considerou o destino desse povo uma punição. Os judeus foram deportados da Inglaterra e da França nos séculos XIII e XIV; na Espanha, começaram a ser perseguidos no século XV e acabaram expulsos em 1492. Na Noruega, uma lei aprovada em 1687 negava a qualquer judeu o acesso ao país sem permissão especial, e a Constituição norueguesa de 1814 conservou esse embargo. A "cláusula judaica" só foi anulada em 1851.

Sem dúvida, a pior de todas as perseguições sofridas pelos judeus ocorreu na Alemanha entre 1933 e 1945. Acredita-se que 6 milhões de judeus foram exterminados durante o regime nazista. Fazia muito tempo que os judeus vinham tendo uma participação proeminente na vida cultural da Europa Central, como artistas, cineastas, escritores e cientistas. Também havia jornais e livros, filmes e peças de teatro que circulavam em iídiche, língua semelhante ao alemão mas escrita com caracteres hebraicos, falada por muitos judeus.

Alemães nazistas assassinando judeus
Mesmo nos períodos em que não havia perseguição direta, com freqüência os judeus eram tratados como párias sociais. Eles eram forçados a adotar nomes facilmente reconhecíveis e a morar em áreas especiais da cidade, os chamados guetos. Numa época em que a agricultura consistia no meio mais comum de subsistência, era-lhes proibido possuir terras, o que os impeliu a se destacar no comércio. Diferentemente dos muçulmanos e dos católicos, sua religião lhes permitia ganhar juros emprestando dinheiro, e muitos deles se tornaram importantes banqueiros.

As expectativas messiânicas e o sionismo

Durante milhares de anos os judeus esperaram um Messias que viria criar um reino de paz na Terra. As raízes históricas dessa expectativa datam da idade de ouro de Israel, no reinado de Davi, quando os reis eram ungidos ao subir ao trono. Na verdade, a palavra Messias significa "o ungido". Desde a época do exílio babilônico os judeus alimentaram a esperança e a crença de que chegaria um Messias, um novo rei saído da linhagem de Davi. Esse rei ideal iria restabelecer Israel como uma grande potência, e seu povo passaria a viver em eterna felicidade.

Até hoje a expectativa da chegada do Messias continua viva em muitos judeus. Mas nem todos pensam no Messias como uma pessoa; falam, em vez disso, numa futura "era messiânica": um estado de paz na Terra, no qual Israel assumiria um papel de destaque. Alguns judeus acreditam que a fundação de Israel, em 1948, cumpriu as expectativas messiânicas que seu povo conservou de geração em geração.

A fundação do Estado de Israel constituiu a culminância de um longo processo cujos primeiros passos foram dados no final do século XIX, quando muitos judeus começaram a falar sobre a possibilidade de voltar para sua antiga pátria. Isso representou o reforço palpável de um antigo desejo, que é repetido pelos judeus todos os anos na Páscoa: "No ano que vem em Jerusalém". O escritor e jornalista Theodor Herzl (1860-1904), em seu influente livro O Estado judaico, argumentava que, como nem a integração e assimilação dos judeus aos países onde viviam conseguira acabar com a perseguição a eles, a única solução seria lhes dar um Estado próprio. Essa idéia foi chamada de sionismo, palavra vinda de monte Sião, colina sobre a qual Jerusalém foi parcialmente construída.

Naquela época havia apenas cerca de 25 mil judeus vivendo na Palestina; a partir daí, porém, iniciou-se uma considerável onda de imigração, em especial de judeus russos. Mas os planos para fundar um país próprio progrediam devagar, em parte porque na época a Palestina era uma colônia britânica. Entretanto, a perseguição nazista aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial gerou uma situação inteiramente nova. Terminada a guerra, a nova República de Israel foi proclamada em 1948. Muitos antigos sionistas desejavam criar um Estado laico, secular, mas os judeus ortodoxos conseguiram realizar seu desejo de que o país fosse fundado com base na religião judaica.

Esse novo Estado tem vivido em contínuo conflito com o mundo árabe, também por causa dos milhares de palestinos que foram deslocados na época da fundação de Israel.

Desde sua criação, Israel já recebeu imigrantes judeus vindos de todos os cantos do mundo, que trouxeram ao país uma variedade de idéias e tradições.

As Sagradas Escrituras

O livro sagrado dos judeus é a Bíblia, uma coleção de textos de natureza histórica, literária e religiosa. A Bíblia judaica equivale ao Antigo Testamento, porém é organizada de maneira um pouco diferente. O cânone judaico foi fixado por um concilio era Jabne por volta de 100 d.C. Compreende 24 livros, divididos em três grupos:
* A Lei (Torá) — o Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés
* Os profetas (Neviim) — os livros históricos e proféticos
* Os escritos (Ketuvim) — os demais livros

Se tomarmos as letras iniciais dessas três partes, veremos que formam o acrônimo Tenakh, que é o nome judaico comum para a Bíblia. Na verdade, a palavra Bíblia vem do termo grego que significa "livros".

A LEI (TORÁ)

Na época de Cristo, os cinco livros de Moisés (ou Pentateuco) eram considerados pelos judeus uma só entidade e chamados de "A Lei", pois continham as normas judaicas legais e morais, assim como as regras relativas ao culto. A divisão em cinco livros data de sua tradução para o grego, que foi feita com base no original hebraico por volta de 200 a.C.


Os cinco livros de Moisés não foram escritos por um único autor do início ao fim. A miríade de histórias que neles se encontra foi, por muito tempo, transmitida sobretudo oralmente. Os livros de Moisés compreendem, portanto, um complexo conjunto de textos escritos durante um longo período, num processo que se completou por volta de 400 a.C.

OS LIVROS HISTÓRICOS E PROFÉTICOS

E típico desses livros considerar os acontecimentos políticos uma expressão das relações entre Deus e os israelitas, sob circunstâncias variadas. Toda a história de Israel é apresentada como um exemplo da lei da justa retribuição: a conformidade com a vontade de Deus traz bênçãos para seu povo, com tanta certeza como a desobediência e a apostasia (o abandono da religião) levam a um julgamento severo e à dor. O destino de Israel é constantemente interpretado à luz das exigências divinas. Assim, tais livros podem ser lidos como uma justificativa para a destruição do Templo de Jerusalém e para o exílio de grande parte da população na Babilônia.

Trata-se da mais antiga história escrita de que há registro no mundo. Esses livros surgiram muito antes de haver algo como a história comparada ou a análise das fontes.

No entanto, o objetivo dos livros históricos do Antigo Testamento não era propriamente registrar a história, e sim dar a ela uma interpretação religiosa.

Dois dos livros históricos receberam nomes de mulher. Os livros de Rute e de Ester são histórias curtas e belas, com mulheres no papel principal.

Os livros proféticos são Isaias, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas Menores, assim chamados por causa da brevidade de suas obras; Oséias, Joel, Amos, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Muro das lamentações
Segundo seu próprio testemunho, os profetas foram chamados para proclamar a vontade de Deus. Muitas vezes eles usam a fórmula "Diz o Senhor".

Ao transmitir uma mensagem, por exemplo, vinda de um rei, o mensageiro a iniciava com as palavras "Diz o rei". Desse modo, deixava claro que não estava falando por si mesmo. Esse preâmbulo funcionava como uma assinatura ou o carimbo de uma carta na época moderna. Da mesma forma, os profetas acreditavam que tinham sido enviados por Deus para levar a mensagem dele ao povo.

Se as pessoas não vivessem segundo as exigências feitas por esse Deus justo, ele iria, segundo os profetas, distribuir seu julgamento e aplicar seu castigo.

Um bom exemplo da pregação desses profetas é a de Amós, o profeta mais antigo da Bíblia, que viveu por volta de 750 a.C. Seu ataque contra o abandono da maneira correta de adorar a Deus, bem como suas críticas à desigualdade social e à opressão dos ricos sobre os pobres, continua despertando interesse até hoje. Amós chega a ponto de mostrar os pobres e oprimidos como os verdadeiros justos, em oposição aos ricos.

Na verdade, vários profetas davam mais ênfase à justiça e aos ideais éticos do que às demonstrações externas do culto sacrificial. "Que me importam vossos inúmeros sacrifícios?, diz Iahweh." "Basta de trazer-me oferendas vãs: elas são para mim um incenso abominável." "Tirai da minha vista as vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem" (de Isaías 1).

Assim como as profecias prediziam que haveria um julgamento severo sobre Israel, elas previam também a salvação. Essas promessas, palavras de consolação, afirmavam que Deus haveria de salvar do julgamento e da destruição alguns "remanescentes" de seu povo, e enviar um príncipe ou rei da paz, vindo da linhagem de Davi, que faria Israel reviver e o conduziria a um futuro feliz. Tais profecias são particularmente numerosas em Isaías, nos capítulos 7, 9 e 11: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria como a da morte".

Um terceiro tipo de voz profética é a exortação, representando algo intermediário entre os dois outros tipos de profecia. Aqui, o caminho está aberto para que as pessoas se salvem do julgamento divino, desde que se arrependam e vivam de acordo com a vontade de Deus: "Procurai o bem e não o mal para que possais viver, e, deste modo, Iahweh, Deus dos Exércitos, estará convosco, como vós o dizeis! Odiai o mal e amai o bem, estabelecei o direito logo à porta; talvez Iahweh, Deus dos Exércitos, tenha compaixão do resto de José" (Amós 5,14-15).




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