domingo, 8 de agosto de 2010

Estudo das religiões: BUDISMO - 2


NIRVANA

Qual foi a verdade que Buda alcançou debaixo de sua figueira? Suas idéias fundamentais eram profundamente pessimistas, como já vimos. Tudo o que existe no mundo é (a) sem autonomia, (b) transitório, e, em conseqüência, (c) pleno de sofrimento. Assim, ele não via esperança enquanto o homem estivesse preso nesse ciclo. Contudo, existe algo eterno, algo fora do sofrimento. O budista chama a isso de nirvana. Essa palavra significa, na verdade, "apagar", uma referência ao fato de que o desejo "se extingue" quando se atinge o nirvana. A imagem representa o desejo como uma chama que se apaga quando o combustível termina — o combustível é a luxúria humana, o ódio e a ilusão.

As descrições do nirvana em textos budistas costumam ser expressas em termos negativos. Uma vez que o nirvana é o oposto direto do ciclo do renascimento, uma vez que ele não pode ser comparado a nada em nossa vida diária, só é possível dizer o que o nirvana não é. Poderíamos talvez descrever o nirvana como uma quinta dimensão, divorciada de nossa existência quadridimensional. Poucos textos budistas, porém, descrevem o nirvana em termos positivos.

Uma condição para alcançar o nirvana é que o budista encontre a iluminação (bodhi), exatamente como ocorreu com o Buda debaixo de sua figueira. Logo, as boas obras por si sós não bastam para o nirvana. Entretanto, um estilo de vida irreprochável pode levar a bons renascimentos, que mais tarde poderão possibilitar o encontro da iluminação. Buda, segundo se conta, nasceu 547 vezes antes de finalmente chegar lá.

Um estado em que todo o carma já foi esgotado e a lei do renascimento foi rompida — é isso que o nirvana descreve. Assim, o nirvana é uma condição que se pode experimentar aqui e agora. Pode ser tão intensa que o budista sente que ela está queimando o mundo inteiro. E quando ele enfim volta para o mundo, tudo o que encontra são cinzas frias.

O nirvana final, que a pessoa atinge quando morre, é irreversível. Por vezes ele é designado no budismo por um termo especial, parinir-vana, isto é, "extinção absoluta", ou "extinção última".

ÉTICA

Quando o Buda alcançou a iluminação depois de sua meditação, o deus Brahma foi até ele e lhe pediu que levasse seus ensinamentos para outras pessoas. E mais uma vez Buda sentiu compaixão pelos seres humanos e por todos os outros seres vivos. "Contemplou o mundo com olhar de Buda" e decidiu "abrir o portão da eternidade" para os que quisessem ouvir. Buda decidiu se tornar guia do ser humano.

Essa atitude serve de exemplo para outros budistas, pois a vida de Buda é um ideal que os exorta a se comportar eticamente. A compaixão e o amor são centrais na ética budista. Não só as ações, mas também os sentimentos e afetos são importantes. A caridade que fazemos não apenas afeta os outros, mas contribui para enobrecer nosso próprio caráter.

Os cinco mandamentos

Para a vida diária o budismo tem cinco regras de conduta:

1. Não fazer mal a nenhuma criatura viva.
2. Não tomar aquilo que não lhe foi dado (não roubar).
3. Não se comportar de modo irresponsável nos prazeres sensuais.
4. Não falar falsidades.
5. Não se entorpecer com álcool ou drogas.

Essas regras de conduta costumam ser chamadas de cinco mandamentos, porém o budismo não reconhece nenhum ser superior capaz de dar ordens à humanidade sobre como viver. Assim, as regras não dizem "farás isso" ou "não farás aquilo". Elas são formuladas da seguinte maneira: "Tentarei ensinar a mim mesmo a não fazer mal a nenhuma criatura viva".

1. NÃO FAZER MAL A NENHUMA CRIATURA VIVA.

Esta é considerada a mais importante das cinco virtudes. Nem um outro ser humano nem os animais devem ser prejudicados.

O ser humano é o mais importante, já que é superior aos animais. Os budistas consideram o pacifismo um ideal, embora nem todos os budistas sejam pacifistas. Também os países budistas já travaram guerras, e muitas pessoas acreditam que essa regra pode ser quebrada quando se trata de autodefesa. Entretanto, um texto budista afirma que o soldado profissional que morrer em batalha renascerá no inferno ou então como animal.

Para o budista, a vida começa na concepção; desse modo, o aborto infringe essa primeira regra. Só que os métodos anticoncepcionais normalmente são permitidos.

O suicídio também é uma violação da regra, mas não se a pessoa sacrificou sua vida por outra vida. Durante a Guerra do Vietnã, vários monges budistas atearam fogo às próprias vestes para despertar a consciência internacional.

Não há um vegetarianismo coerente no budismo, ainda que muitos monges excluam a carne de sua dieta. Supõe-se que Buda também concordou que se comesse carne, desde que a pessoa estivesse certa de que o animal não fora morto especialmente para ela. Matar uma mosca com um tapa é pior. Como vemos, o motivo e a intenção são relevantes.

2. NÃO TOMAR AQUILO QUE NÃO LHE FOI DADO.

Isso não se refere simplesmente ao roubo, mas também à trapaça de todos os tipos. Podemos considerar que é uma regra acerca da correção nos negócios e da ética no trabalho.

3. NÃO SE COMPORTAR DE MODO IRRESPONSÁVEL NOS PRAZERES SENSUAIS.

Essa regra se refere às atividades sexuais que podem prejudicar os outros: estupro, incesto e adultério. A atitude para com o adultério varia segundo os costumes locais. O budismo não abrange apenas sociedades monogâmicas, mas também culturas cuja tradição engloba a poligamia e a poliandria. Já o homossexualismo é sempre considerado uma quebra dessa regra.

Essas três primeiras regras se relacionam às atividades humanas e se incluem no item "perfeita conduta" do caminho das oito vias. O item "perfeita fala" abrange a próxima regra.

4. NÃO FALAR FALSIDADES.

A verdade é extremamente importante no budismo, mas essa regra não trata apenas da mentira. Ela também alerta contra as respostas maldosas, a fofoca, a ira e as conversas fúteis. O homem deve falar com seus semelhantes de modo verdadeiro, amigável e devotado. Até mesmo ficar em silêncio faz parte da perfeita fala.

5. NÃO SE ENTORPECER COM ÁLCOOL OU DROGAS.

Ficar entorpecido ou embriagado implica não poder se concentrar nas regras que devem ser seguidas. O budismo não é tão rigoroso contra o álcool quanto o islã.

Outras regras mais estritas

Em certos períodos, alguns leigos se submetem a uma disciplina mais estrita. Alguns vão mais longe, seguindo as mesmas regras que se aplicam aos monges e monjas noviços. Nesse caso, as cinco regras passam a incluir, por exemplo, a abstinência sexual (celibato). Além disso, há outras cinco regras:

* Não comer em horas proibidas (por exemplo, após o meio-dia).
* Afastar-se de todos os divertimentos mundanos.
* Abdicar de todos os luxos (como jóias, perfumes etc).
* Não dormir numa cama macia nem larga.
* Não aceitar nem possuir ouro, prata ou dinheiro.

O PERFEITO MEIO DE SUBSISTÊNCIA

O quinto estágio do caminho das oito vias é o perfeito meio de subsistência. Significa, entre outras coisas, que se deve escolher um meio de vida que não obrigue à infração das cinco regras de conduta. Embora um budista possa comer carne, não deve ser açougueiro. Embora possa tomar um copo de vinho, não deve ser comerciante de vinhos. Embora sirva ao exército de seu país, não deve ser um negociante de armas.

A melhor de todas as vidas é a do monge, pois ele pode se devotar inteiramente ao caminho das oito vias.

O VALOR DA DOAÇÃO

As cinco regras de conduta estão expressas na forma negativa, mas quando são seguidas, seus aspectos positivos aparecem. O oposto de fazer mal é demonstrar amor e compaixão. O oposto de roubar é dar. Uma das coisas mais positivas que um budista pode fazer é dar presentes. Isso significa sobretudo fazer doações para as sociedades monásticas, que dependem totalmente da caridade dos leigos. Tais presentes elevam o carma da pessoa. Mas dar com a intenção de obter algo em troca não basta. Quanto mais puro o motivo para dar, melhor carma trará.

Buda exortava os que desejavam lhe querer bem a querer bem aos doentes. Muitos mosteiros se empenham em trabalhos humanitários. Os budistas se preocupam especialmente em cuidar dos moribundos. A morte é um momento decisivo em relação ao nascimento; portanto, o objetivo é ter uma boa morte.

A COABITAÇÃO E O PAPEL DAS MULHERES

O casamento não é sagrado para os budistas, mas apenas um tipo de acordo entre as partes. Por esse motivo os monges não celebram casamentos. No Japão, quando os budistas se casam, procuram um sacerdote xintoísta. O divórcio, embora ainda pouco comum na maioria das culturas budistas, também não é uma questão religiosa.

O marido deve mostrar respeito para com sua mulher, e esta, por sua vez, deve cumprir seus deveres domésticos. Apesar de várias mulheres em países budistas desfrutarem de uma posição elevada, normalmente se considera menos vantajoso renascer como mulher do que como homem.

A VIDA RELIGIOSA

MONGES, MONJAS E LEIGOS

Buda criou uma nova ordem, a sociedade monástica, independente do sistema de castas. Para seguir à risca os ensinamentos do Buda, era necessário deixar para trás todos os cuidados e as preocupações relativas à família e à vida social. Até hoje a ordem monástica constitui a espinha dorsal da vida religiosa na maioria das terras budistas.

Dessa maneira, ao considerar a vida religiosa budista, é importante distinguir entre os monges e as monjas, por um lado, e, por outro, os leigos. Monges e monjas têm regras de conduta muito mais estritas do que os leigos. Em primeiro lugar, há as dez regras, que também se aplicam aos noviços; além disso, há várias centenas de outros mandamentos e injunções que definem tais regras com mais precisão.

Como já vimos, os monges e as monjas levam uma vida de simplicidade e pobreza. Desde os dias do Buda, costumam obter o pouco de que necessitam para sobreviver pedindo esmolas, o que não é tido, de modo nenhum, como degradante. Pelo contrário: para o leigo, é uma honra dar esmolas aos monges. Em alguns lugares os monges esmolam nas ruas, de porta em porta. Monges vestidos com seu hábito cor de açafrão pedindo comida (em geral arroz) pelas ruas é uma cena comum nos países budistas do Sudeste asiático. Em outras regiões, a tarefa de esmolar adquire uma forma mais organizada; por exemplo, cada casa de família é responsável pela comida do mosteiro em certos dias da semana.

Um mosteiro budista não fica isolado da vida da cidade ou da aldeia. Não são apenas os leigos que têm deveres para com os monges; estes também têm suas responsabilidades para com os leigos. Em determinados dias, instruem os leigos sobre os ensinamentos do Buda. As pessoas comuns podem ainda passar temporadas em retiro num mosteiro, a fim de meditar ou receber instrução especial. Isso costuma acontecer na época das monções. Em países devotamente budistas, como Birmânia e Tailândia, é comum todos os meninos permanecerem algum tempo num mosteiro, aprendendo budismo.

Assim, podemos dizer que os dois grupos — monges e leigos — são interdependentes. Mesmo que um budista não venha a se tornar um monge em sua vida atual, se ele ajudar a sustentar um mosteiro, pode aspirar a ser um monge na próxima encarnação.

O CULTO

Em tempos antigos o culto religioso consistia inteiramente em venerar as relíquias do Buda ou de outros homens santos. Originalmente as relíquias eram guardadas em pequenos montes de terra (stupas). Aos poucos estas se transformaram naquelas construções características, em forma de sino ou de domo, que hoje chamamos de pagodes.

A partir do século I a.C., tornou-se comum produzir imagens e estátuas do Buda. Elas podem ser vistas por toda parte nos países budistas, tanto nos templos como nos lares. E seja onde for, o budista devoto fará sua confissão — a fórmula tripla do refúgio, também chamada "As Três Jóias":
* Procuro refúgio no Buda.
* Procuro refúgio nos ensinamentos.
* Procuro refúgio na comunidade monástica.

Apesar de os budistas venerarem as imagens do Buda queimando incenso e pondo flores e outras oferendas diante delas, para o budista ortodoxo isso não é propriamente uma adoração formal. Buda foi apenas o guia da humanidade, foi o mestre "glorificado", e como já entrou no nirvana, não pode ver nem recompensar as ações de um budista. Por isso, suas imagens não devem ser adoradas; estão ali para lembrar os ensinamentos do Buda e auxiliar o budista em sua meditação e em sua vida religiosa.

FERIADOS RELIGIOSOS

A festa religiosa mais importante para os budistas é o aniversário do nascimento do Buda, comemorado em abril ou maio, na lua cheia. Também se acredita que foi esse o dia da iluminação do Buda e de sua entrada no nirvana. Além dessa data, cada país tem várias festas religiosas, muitas vezes celebradas com peregrinações em massa aos mosteiros ou pagodes mais conhecidos. Para a maioria dos leigos, as festas e outras manifestações devocionais externas desempenham um papel bem mais relevante do que a meditação praticada pelos monges.

DEUSES

Buda não negou a existência dos deuses. Como já vimos, foi um deus que o exortou a proclamar sua mensagem para a humanidade. Ele não era um ateu no sentido ocidental. Todavia, acreditava que a existência dos deuses era transitória, assim como a existência humana. Embora eles vivam mais tempo que os seres humanos, em última análise também estão atrelados ao ciclo do renascimento. Ainda não alcançaram a "outra margem" e, portanto, não podem redimir o homem de tal ciclo. Por isso, o papel dos deuses é insignificante na literatura monástica budista.

Não obstante, nos países budistas há uma adoração generalizada de demônios, espíritos e várias outras divindades. Diferentemente do próprio Buda, todos estes são seres vivos e ativos, os quais — se cultuados de modo correto — podem trazer vantagens mundanas. Os templos budistas muitas vezes contêm estátuas de deuses como Vishnu, Indra e Ganesha, mas sempre dispostas de maneira subserviente a Buda.

O budismo tem espaço para um amplo espectro de cultos e sentimentos religiosos. Essa é uma importante razão pela qual o budismo ganhou tão ampla aceitação em toda a Ásia.

A DIFUSÃO DO BUDISMO

Não muito depois da morte do Buda ocorreu uma divergência entre seus discípulos acerca da maneira como os ensinamentos dele deviam ser interpretados. Um século mais tarde (por volta de 380 a.C.) foi realizado um concilio. Como diversos monges expressaram o desejo de moderar a disciplina monástica, o encontro terminou numa divisão entre uma facção conservadora e outra mais liberal.

Na época moderna é costume distinguir entre duas tendências principais: Theravada ("a escola dos antigos"), predominante no Sul da Ásia (Birmânia, Tailândia, Sri Lanka, Laos e Camboja), e Mahayana ("o grande veículo"), predominante no Norte da Ásia (China, Japão, Mongólia, Tibet, Coréia e Vietnã).

Continua...

Estudo das religiões: BUDISMO - 3



THERAVADA — O CAMINHO DA AUTO-REDENÇÃO

Como sugere o nome Theravada ("a escola dos antigos"), essa escola acredita representar o budismo em sua forma original. De acordo com os ensinamentos do Buda, enfatiza a salvação individual por meio da meditação. Como não existe nenhum deus para redimir o homem do ciclo dos renascimentos, ela ressalta que o indivíduo deve salvar a si mesmo. Assim, podemos dizer que o budismo Theravada é uma religião de auto-redenção.

Aqui, o Buda é visto como mestre e guia dos seres humanos. Ele não é adorado como um deus, nem pode salvar as pessoas, mas indicou o caminho para a salvação, que pode ser seguido pelo indivíduo.

Na prática, só os monges podem imitar o exemplo do Buda até atingir o nirvana, e mesmo entre eles, muito poucos o alcançam nesta vida. Um monge que pertença a esse pequeno grupo é chamado arhat (venerável). O arhat, como o Buda, já extinguiu seus desejos e venceu o mundo. É um exemplo resplandecente para os leigos e o ideal que todos os budistas perseguem, pois mesmo que um budista não consiga deixar este mundo definitivamente em sua vida atual, ele pode conseguir um bom carma para si mesmo e talvez se tornar um monge numa existência futura.

Podemos dizer que a idéia mais importante do budismo Theravada é que o próprio indivíduo deve assumir responsabilidade por seu desenvolvimento ético e religioso. Não há atalho para a salvação nem para a perfeição ética. Cada pessoa deve começar por si mesma. Isso se aplica aos leigos, bem como aos monges.

MAHAYANA — O CAMINHO DA AJUDA MÚTUA

Até agora, baseamos na escola Theravada a representação da vida e dos ensinamentos do Buda, assim como a descrição da vida religiosa budista. A seguir vamos nos afastar dessa abordagem do "budismo comum" e nos concentrar nas características do budismo Mahayana.

Mahayana significa "o grande veículo", ou "a grande nave", e seu nome reflete a crença, predominante no budismo do Norte da Ásia, de que é possível levar todas as pessoas à redenção. O budismo Theravada é chamado de Hinayana, ou seja, "o pequeno veículo", já que leva apenas alguns (os monges) a salvação.

Também na visão que têm de Buda, existem grandes diferenças entre o budismo Mahayana e o budismo Theravada. Enquanto o Theravada considera o Buda apenas um ideal e um raio de salvação, o Mahayana acredita no Buda como o salvador, isso é importante porque implica que os monges não são os únicos que podem ser salvos. Os leigos podem igualmente se devotar ao Buda e, por sua graça, alcançar a redenção.

OS BODHISATTVAS

O objetivo do budismo inicial era que o indivíduo atingisse a salvação por seus próprios esforços. O ideal do indivíduo consistia em se tornar um arhat, ou seja, alguém que deixou o mundo para trás e entrou no nirvana. Esse objetivo, porém, era muito estreito para o Mahayana. Interessar-se apenas pela própria salvação é considerado egoísmo. O objetivo deve ser a redenção de todos. Em conseqüência, o ideal religioso do budismo Mahayana é o bodhisattva, o qual, depois de alcançar a iluminação (bodhi), abdica do nirvana a fim de ajudar outras pessoas a alcançar a salvação. Aqui muitas vezes se ressalta que o próprio Buda abdicou do nirvana imediato por causa da compaixão por seus semelhantes.

Um bodhisattva ("existência iluminada") pode ser qualquer pessoa que resista a se tornar um Buda. No entanto, esse termo se aplica sobretudo a uma longa lista de etéreas figuras de salvador, às quais os seres humanos podem recorrer em busca de ajuda. A única coisa que as distingue de um Buda é que elas não entram no nirvana até que todas as criaturas vivas tenham sido redimidas do renascimento.

Características típicas de um bodhisattva são a compreensão e a compaixão. Hoje em dia é a compaixão do bodhisattva que é mais realçada. A bondade para com as outras criaturas vivas não é considerada simplesmente um ideal, mas o caminho para a iluminação e a redenção.

Com sua doutrina do bodhisattva, o budismo Mahayana se afastou muito dos ensinamentos do budismo Theravada. Assim como o cristão "põe sua vida nas mãos de Deus", o muçulmano "se submete" a Alá e os vaishnavitas "se dedicam" a Vishnu — o budista mahayana pode compartilhar do amor salvador de um divino bodhisattva.

A DOUTRINA DO CARMA E A ILUSÃO DO EU

Como já vimos, o budismo Mahayana discorda do Theravada na doutrina de que o homem deve salvar a si mesmo. Isso também implica um rompimento com a doutrina estrita do carma. A idéia de que uma pessoa pode ser salva de seu carma pelos méritos alheios é impensável no budismo do Sul. Porém, o Mahayana tem um conceito próprio de carma: uma vez que há uma relação de dependência recíproca entre todos os seres vivos, não é o carma do indivíduo que é importante.

Nesse ponto, muitos budistas mahayana se referem ao fato de que a experiência do eu, de ser algo separado do mundo ao redor, é simplesmente resultado da cegueira do homem. E apenas os que fizeram pouco progresso rumo à iluminação é que sofrem dessa cegueira. O bodhisattva, por outro lado, já superou a ilusão do eu e não distingue mais entre si mesmo e os outros. Assim, um bodhisattva pode transferir algo de seu bom carma para os que procuram a ajuda dele na luta para atingir o nirvana.

DIVERSIDADE RELIGIOSA

O hinduísmo e o budismo sempre demonstraram um nível de abertura e tolerância em questões religiosas bem diferente daquele a que estamos acostumados no Ocidente. A diversidade religiosa não é considerada uma fraqueza. Muitos budistas diriam até que o oposto é que é verdade. A força do budismo se revela nos numerosos frutos que ele traz.

O objetivo de todos os budistas é se redimir do ciclo dos renascimentos. A questão consiste em saber que métodos ou recursos devem ser procurados para se atingir esse objetivo. As pessoas são muito diferentes. Os povos asiáticos, em particular, são provenientes de formações culturais bastante variadas. Assim, os métodos utilizados precisam refletir esse fato. Em conseqüência, costuma-se destacar que a experiência é o princípio que deve guiar a escolha dos métodos.

Entre os muitos movimentos dentro do Mahayana, dois atraíram mais interesse nas últimas décadas. São a tendência tibetana Vajra-yana (o veículo de diamante) e o zen-budismo japonês. Esses movimentos se destacam do budismo Mahayana de várias maneiras.

BUDISMO TIBETANO

No Tibet, o budismo se incorporou à religião local, denominada Bon. Esta se caracterizava pela crença em deuses e espíritos, que eram cultuados com sacrifícios sangrentos, encenações de mistérios e danças rituais. Vários desses deuses originais continuam sendo cultuados como guardiães dos ensinamentos budistas. Contudo, sob a superfície prevalece a doutrina budista. Os budistas tibetanos acreditam que eles representam a doutrina original, não adulterada.

Algumas características externas mais aparentes do budismo tibetano são as rodas de oração e as bandeiras de oração — objetos que contêm diversas orações e fórmulas escritas. Quando a roda de oração gira — impulsionada ou pela mão de alguém ou pelo vento ou pela correnteza de uma cachoeira — ou a bandeira tremula ao vento, ela põe em movimento "a roda do ensinamento".

O mantra (fórmula mágica ou enunciação sagrada) mais comum no budismo tibetano é Om Manipadme Hum, que significa "O tu, que tens a jóia no teu lótus", ou "Seja louvada a jóia no lótus". Essa fórmula é encontrada por toda parte no Tibet: nas rodas de oração, nas paredes, nas rochas e, naturalmente, nos lábios das pessoas. Para aumentar sua eficiência, usa-se um rosário de 108 contas (108 é um número sagrado).

O LAMAÍSMO

No Tibet o budismo muitas vezes é chamado lamaísmo, do termo lama ("professor" ou "mestre"), nome dado aos líderes espirituais, em geral monges.

Em nenhum outro país do mundo o budismo permeia tão completamente o tecido da sociedade como no Tibet. Grandes parcelas da população se integraram às ordens religiosas de monges e monjas, e os mosteiros sempre tiveram íntimo contato com os leigos. Vários desses mosteiros já abrigaram mais de mil monges e são considerados as maiores instituições monásticas que já existiram.

A originalidade do lamaísmo reside em sua estrutura social. Desde o século XVII o Tibet é governado por um lama principal, ou dalai-lama (oceano de sabedoria), que tem sua sede na capital, Lhassa. O dalai-lama é o líder religioso e político do país. Acredita-se que ele seja a reencarnação de um famoso bodhisattva.

Ao morrer um dalai-lama, os sacerdotes buscam uma criança que tenha sua marca. Quando, depois de vários testes, é encontrada a criança certa, ela é consagrada como o novo dalai-lama.

BUDISMO TIBETANO CONTEMPORÂNEO

Em virtude de sua cultura muito distinta e de sua localização inacessível entre as montanhas mais altas do mundo, o Tibet por um longo tempo foi considerado uma espécie de "terra de contos de fada". Porém, em 1959 o conto de fada teve um fim súbito: a China assumiu o controle total do país e o dalai-lama foi obrigado a fugir para a Índia, onde obteve asilo político. Desde essa época, dezenas de milhares de tibetanos se refugiaram na Índia e no Nepal, lugares em que o budismo tibetano continua vivo.

Mosteiros budistas seguindo os padrões tibetanos surgiram na maioria dos países da Europa Ocidental e nas Américas.

ZEN-BUDISMO

A maior ambição de todos os budistas é atingir algum dia a iluminação (bodhi), como aconteceu com o Buda debaixo de sua figueira em Bodh Gaya, há 2500 anos. Dentro do budismo, porém, existem consideráveis diferenças de opinião sobre o que essa iluminação implica e como se chega a ela. Dentro da tradição do budismo Mahayana, surgiu na China uma escola especial de meditação que, mais do que qualquer outro movimento, realçava a iluminação como o verdadeiro núcleo do budismo. Esse movimento aos poucos se espalhou para a Coréia e o Japão, e ficou conhecido no Ocidente por seu nome japonês, Zen, que significa "meditação". Como hoje em dia é mais fácil estudar o zen no Japão do que na China, vamos nos concentrar no zen-budismo japonês. No Japão essa vertente budista conta hoje com cerca de 20 mil templos e 5 milhões de adeptos, entre monges e leigos.

"VISÃO DIRETA"

O zen-budismo se baseia na iluminação do Buda. Os ensinamentos do Buda, tal como foram passados para os textos budistas, não recebem tanta prioridade. Isso reflete a profunda desconfiança do zen quanto à palavra e sua capacidade de transmitir conhecimento. Não obstante, aquilo que não pode ser transmitido pela palavra pode ser transmitido pela "visão direta". Diz-se que o Buda trouxe a iluminação para seu discípulo mais promissor simplesmente segurando uma flor diante dele, sem nada dizer. Assim, a iluminação vem sendo comunicada de geração em geração pela transmissão não verbal.

Ensina o zen que a iluminação deve vir de dentro, deve ter sua origem no coração do indivíduo. Conta-se que um famoso mestre zen jogou todas as imagens do Buda na lareira a fim de aquecer a sala em que ele e seus discípulos se encontravam.

Os ensinamentos do Buda só podem nos levar até uma parte do caminho. Podem ensinar o rumo certo, mas o importante é vislumbrar aquilo para onde apontam, a iluminação em si. Nós, seres humanos, muitas vezes nos comportamos como crianças; estamos mais interessados no dedo que aponta do que naquilo que ele mostra. É fácil manifestar mais preocupação com as idéias ou os rituais religiosos do que com a experiência religiosa que é objeto dessas idéias e desses rituais. Aqui o método de "apontar diretamente" pode ajudar a obter uma compreensão espontânea da realidade, uma percepção sem restrições, que não precisa de palavras.

Uma vez que a iluminação deve vir de dentro, o zen-budismo não tem nenhuma fórmula fixa para alcançá-la. Mas ela pode chegar quando menos se espera e atingir a pessoa como um raio. É como uma piada que de repente se compreende. De súbito, a pessoa "desperta" — e fica consciente de que faz parte do infinito, de uma maneira inteiramente nova. Isso não vem gradualmente, com o tempo. Quando ela chega de fato, é total. Sua manifestação não está ligada nem mesmo à meditação. Uma experiência mundana qualquer também pode acabar levando, com igual facilidade, ao objetivo desejado.

A "TERAPIA DE CHOQUE" ZEN-BUDISTA

Alguém já disse que o budismo Theravada busca abrir a porta do nirvana à força, ao passo que o Mahayana quer ficar mexendo a chave até que a porta se abra por vontade própria. Essa descrição talvez seja mais típica do zen-budismo que de outros movimentos mahayanas.

Como vimos, as noções fixas podem ser um obstáculo para a iluminação; portanto, um pré-requisito é a mente se esvaziar de palavras e idéias. O importante no zen é romper com a lógica do discípulo e com seus processos conceituais de pensamento. Desde a era chinesa do zen, a mais antiga, isso sempre foi feito pelos mestres ao apresentar a seus discípulos perguntas e respostas totalmente surpreendentes. A seguinte conversa entre mestre e discípulo serve de exemplo dessa técnica:
DISCÍPULO: Qual é o caminho para a libertação?
MESTRE: Quem está te acorrentando?
DISCÍPULO: Ninguém está me acorrentando.
MESTRE: Então, por que queres ser libertado?

Semelhante a esses diálogos é o uso de charadas que parecem absurdas e sem sentido. O mestre zen pode fazer a seu discípulo perguntas como: "Como era seu rosto antes de você nascer?". Ou: "Que som se produz quando se bate palma com uma só mão?". Ao ponderar esses enigmas, o discípulo zen é levado a experimentar um "sentimento de dúvida".

O ZEN NA VIDA COTIDIANA

Uma característica do zen é sua atitude positiva para com as tarefas mundanas. Isso deriva da visão zen sobre o que é a iluminação.

Se se pedisse a um zen-budista que explicasse a iluminação, ele poderia talvez dizer: "O cipreste no jardim!". Ou, se ele realmente estivesse disposto a responder à pergunta em nossos termos, poderia dizer que a iluminação é perceber que não existe iluminação. Como não há nenhuma "verdade" para a qual se deva acordar, e nenhuma "ilusão" da qual se deva acordar, a iluminação é compreender que o mundo é tal qual nós o vemos.

Mas nós estamos agora empregando palavras e conceitos, e assim fazendo, estamos nos distanciando dos ensinamentos do Buda. Talvez devêssemos dizer que não há nenhuma outra maneira de compreender o significado da vida a não ser vivê-la. Em conseqüência, muitos zen-budistas destacam que o trabalho rotineiro pode ser usado como um exercício de meditação. A prática consciente de uma rotina manual pode ser tão favorável para a iluminação quanto a meditação e os rituais religiosos. Por esse motivo, ocupações aparentemente triviais como tomar chá, fazer arranjos de flores e cuidar do jardim passaram a ter grande importância no zen-budismo. No Japão, certos esportes e formas de arte também receberam forte influência do zen: arco e flecha, luta corporal, esgrima, teatro, poesia (haicai), música e pintura.

O REAVIVAMENTO BUDISTA

Em épocas recentes, e em especial desde a última guerra mundial, o budismo passou por um reavivamento, sobretudo entre os budistas com mais treino filosófico. Aspectos importantes desse reavivamento são o trabalho pela unidade do budismo, maior empenho missionário e maior atividade social.

MAIOR UNIDADE

Diversos concílios mundiais budistas tentaram iniciar uma cooperação budista internacional. Isso inclui um esforço para se obter maior unanimidade de doutrina entre as várias seitas budistas. Os concílios passam a desempenhar, assim, um papel semelhante ao do Conselho Mundial de Igrejas dentro da religião cristã.

MISSÃO

Outro aspecto desse reavivamento budista é a atividade missionária, que começou também no Ocidente. Hoje há milhares de budistas nas Américas e na Europa Ocidental, e várias capitais têm centros missionários. Por outro lado, o budismo perdeu terreno em países da Ásia depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo em razão da ascensão do comunismo.

ATIVIDADE SOCIAL

Houve ainda uma grande mudança no terreno ético. O ideal budista original era trabalhar por sua própria salvação se valendo da meditação, algo que pouco incentiva a atividade social. Mas o budismo também realça a abnegação de si e a caridade, o que tem levado a uma participação ativa nas questões sociais e políticas contemporâneas.

(O livro das religiões / Jostein Gaarder, Victor Hellern, Henry Notaker ; tradução Isa Mara Lando; revisão técnica e apêndice Antônio Flavio Pierucci. — São Paulo: Companhia das Letras, 2000.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Música para a alma



Kitaro



EVANGELHO DE MATEUS, CAPÍTULO 4


1 Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome;

3 E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.

4 Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

5 Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo,

6 E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces em alguma pedra.

7 Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

8 Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles.

9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

10 Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.

11 Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.

12 Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galiléia;

13 E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali;

14 Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz:

15 A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia das nações;

16 O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou.

17 Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

18 E Jesus, andando junto ao mar da Galiléia, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, os quais lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores;

19 E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.

20 Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no.

21 E, adiantando-se dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com seu pai, Zebedeu, consertando as redes;

22 E chamou-os; eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no.

23 E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.

24 E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava.

25 E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão.

Comentário

Em nossa interpretação, não existe um "diabo", como anjo decaído que lutaria contra Deus e seus "anjos". O diabo, ou "satanás", é apenas uma representação do mal que há no mundo e dentro de nós, que ainda não somos perfeitos e temos, sim, algum mal, algum defeito, dentro de nós.

Jesus teria ido para o deserto e ficado 40 dias e noites sem se alimentar. O texto não diz nada sobre o consumo de água, com o que se pressupõe que o Mestre teria bebido água. Se houvesse jejum de água por 40 dias, no deserto, Jesus não teria aguentado, pois algumas horas sem o consumo de água o corpo humano já começa a sofrer, inclusive não controlando a temperatura corporal, instalando-se um quadro de desidratação que poderá chegar ao choque, causando a morte em 5 ou 6 dias. Quanto à alimentação, seria possível Jesus jejuar por 40 dias. Há registros de pessoas que fizeram greve de fome e resistiram por até 73 dias sem comer até morrer, mas tal situação de desnutrição acarreta danos à saúde e ao funcionamento do corpo humano, o que não foi registrado nos Evangelhos.

O certo é que devemos ter em mente, ao tentar interpretar o Evangelho, que "a letra mata" e "o espírito vivifica", como disse o próprio Jesus e depois dele Paulo de Tarso.

E esse jejum, que até os dia de hoje ainda é interpretado como um jejum de alimentação, como um sacrifício, será que quer significar essa privação somente de alimentos? Ou será que é uma privação de todos os excessos, das coisas que não são importantes para a vida verdadeira, que são apenas distrações que conduzem as pessoas aos vícios e perdição? 

Jesus teria ido para o deserto jejuar para confirmar a sua condição de profeta, como fizeram antes os profetas, em suas preparações para as pregrações? Há quem entenda que sim.

E há quem entenda que Jesus nunca teve um corpo físico, nunca encarnou na Terra. E nestes 40 dias ele teria sumido da Terra e estava na dimensão (ou plano) espiritual, cuidando dos assuntos pertinentes ao testemunho que faria em breve, ao tentar acender as luzes dos corações dos seus irmãos encarnados.

Em seguida, narra o Evangelho de Mateus os chamados dos apóstolos Pedro, André, Tiago e João, que largaram todos os seus afazeres para seguir Jesus, sem qualquer questionamento. Esse fato faz pensar. Quem largaria tudo para seguir alguém que não conhece? Somente a condição extremamente especial de Jesus causava esse tipo de reação nas pessoas prontas para segui-Lo. E talvez os apóstolos tenham vindo à Terra com esta missão, seguindo Jesus tão logo o encontraram.

E Jesus curou muitos enfermos, de todos os tipos. Há passagens nos Evangelhos em que Ele dizia: "Tua fé te curou". Isso dá a entender que a pessoa só encontrava a cura quando tinha fé de que isto é possível através daquele Homem Santo, o Filho de Deus. Certamente, Jesus só curarava quem já tinha esta fé e já tinha chegado ao momento da cessação da provação, do momento da libertação dos erros passados, tudo através de Jesus, que conhece os "mistérios" da vida eterna.

Como duvidar de que Jesus era o Messias, o Filho do Homem, o nosso Salvador, que veio nos mostrar o caminho para a perfeição?

Até nos dias de hoje, a fé em Jesus opera verdadeiros "milagres", sabemos bem.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

As várias religiões



Inspirados após assistir a seminários sobre as principais religiões do mundo, passaremos a trazer informações resumidas sobre religiões, buscando encontrar o elo que liga a todas elas.

Após o estudo breve, percebemos que a esmagadora maioria delas, com raras exceções, pregam a "regra de ouro": fazer ao próximo aquilo que gostaríamos que nos fizessem.

No Zoroastrismo: "Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria" (Dadistan-i-Dinik 94:5).


No Judaísmo: "O que é odioso para ti, não o faças ao próximo".

No Confucionismo: "Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam" (Confúcio).


No Budismo: "Não atormentes o próximo com o que te aflige" (Udana-Varga 5:18).

No Hinduísmo: "Esta é a suma do dever: não faças aos outros aquilo que se a ti for feito, te causará dor" (Mahabharata 5:15:17)

No Cristianismo: "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles", Jesus no Sermão da Montanha(Mt. 7, 12).


Assim, podemos dizer que, em geral, todas buscam uma reforma moral da pessoa. Todas pregam a generosidade, o amor e o respeito ao próximo.

Leonardo Boff, frade e teólogo brasileiro, em seu livro "Espiritualidade – Um caminho de transformação", narrou um diálogo que manteve com Tenzin Gyatso, o 14º e atual Dalai Lama, líder do Budismo Tibetano, que bem exemplifica uma das principais funções das religiões, a despeito das divergências que as pessoas criam para defender sua religião como a única ou melhor. Vejamos a conversa narrada pelo frade brasileiro:

“Já que nos referimos várias vezes ao Dalai-Lama, permito-me confidenciar um pedaço da conversa que tive com ele, há alguns anos, e que nos ajudará a entender a questão que irei abordar.

No intervalo de uma mesa redonda sobre religião e paz entre os povos da qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:


- Santidade, qual é a melhor religião?


Esperava que ele dissesse: “É o Budismo tibetano”, ou “São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo”. O Dalai-Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos – o que me desconcertou um pouco, porque eu sabia da malícia contida na pergunta – e afirmou:

- A melhor religião é aquela que te faz melhor.

Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

- O que me faz melhor?


E ele respondeu:


- Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião.


Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável.”

Descobrimos tal diálogo no Blog de Espiritismo (http://blog-espiritismo.blogspot.com/) e depois ele também foi mencionado em um dos seminários referidos, este sobre o Budismo.

Continuaremos a estudar os Evangelhos, mesmo com o trabalho e a dedicação que a tarefa reclama (o que gera um necessário atraso na elaboração dos comentários), esta é a nossa prioridade, seguidores do Cristianismo que somos. Mas o estudo das diversas religiões será atividade paralela que nos ajudará a consolidar entendimentos e perceber que não existe apenas uma religião que leva a Deus, mas vários caminhos, mesmo não religiosos, que podem nos levar até Ele.


Jesus é o nosso Guia, mas vamos conhecer um pouco dos guias de outros irmãos nossos.
A idéia é comentar um pouco sobre as seguintes religiões: Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo, as diversas versões do Cristianismo, algumas outras religiões Orientais e algumas religiões e doutrinas espiritualistas.

Que Deus nos abençoe!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Livro: sinopse de "No mundo maior"




Transcrevemos mais uma excelente sinopse de obra psicografada por Chico Xavier, de autoria de André Luiz, a obra "No mundo maior":


Título: "NO MUNDO MAIOR" – Edição consultada: 7ª Edição/1977
Autor: Espírito ANDRÉ LUIZ (pseudônimo espiritual de um consagrado médico que exerceu a Medicina no Rio de Janeiro)
Psicografia: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER (concluída em 1947).
Edição: Primeira edição em 1947, pela Federação Espírita Brasileira (Rio de Janeiro/RJ)
Nota: Até 2000 já haviam 21 reedições, num total de 290.000 exemplares

Conteúdo doutrinário:
Este livro trata da questão psíquica.
Os distúrbios psíquicos são analisados a partir do Plano Espiritual, trazendo-nos a abalisada opinião de Espíritos especialistas (Instrutores espirituais).
São enfocados os encontros e desencontros da Medicina terrena ante as lições da Doutrina dos Espíritos. O Espiritismo, sabemos, descerra o véu que encobre os mistérios dos distúrbios psíquicos, apontando com bom senso suas causas. Mais que isso: ilumina os caminhos da cura.
Os esclarecimentos espirituais trilhando pela simplicidade e por exemplos possibilitam a todos nós compreender como se processam e como devem ser administrados os casos de:
- esquizofrenia
- epilepsia
- neuroses várias
- fobias
- idéias fixas
- sentimentos de culpa
- mongolismo (estudo de curioso caso).

Eis alguns detalhes, Capítulo a Capítulo:
Cap 1 — Entre dois planos — No plano terrestre: são especificados os procedimentos nas tarefas espirituais de atendimento imediato, não programados, de casos de loucura, suicídios e extremos desastres morais.

Cap 2 — A preleção de Eusébio — Exortação espiritual quanto à ameaça do equilíbrio terrestre pelas doenças da alma. O comportamento humano é radiografado e mostrado à beira dos abismos da alienação mental. Voluntários dedicados são convocados à tarefa da salvação dos displicentes e dos racalcitrantes. É citado o serviço de assistência às cavernas...

Cap 3 — A Casa Mental — Novos conceitos psíquicos a serem compreendidos:
- perversidade: como loucura
- revolta: como ignorância
- desespero: como enfermidade.
Ainda neste capítulo encontramos preciosa instrução espiritual sobre o cérebro humano, que é comparado a um castelo de três andares, nos quais localizam-se:
- primeiro andar: residência dos impulsos automáticos (subconsciente/o passado) – hábito e automatismo
- segundo andar: domicílio das conquistas atuais (consciente/o presente) – esforço e a vontade
- terceiro andar: - casa das noções superiores (superconsciente/o futuro) – ideal e meta superior.
(Nos capítulos subseqüentes há várias citações alusivas a essa instrução).
Há descrição de dois cérebros interligados: obsessor-obsidiado, que odeiam-se reciprocamente, daí resultando estarem ambos loucos, quanto à organização perispiritual.
São citados os “vermes mentais” que produzem moléstias da alma, no cérebro perispiritual.

Cap 4 — Estudando o cérebro — Há a impressionante narração de um crime (assassinato) e suas terríveis conseqüências. É citada a “química espiritual”, instalada no cérebro do desencarnado, muitas vezes com ação conjunta à química orgânica e inorgânica do encarnado.
Somos informados de que o sofrimento áspero, mas redentor, da expiação, não acontece apenas na esfera carnal, mas também em regiões sombrias fora dela...

Cap 5 — O poder do amor — Há exemplar doutrinação espiritual, mostrando a ascendência moral do doutrinador, tarefeiro do Bem: na desobsessão, por exemplo, aqui focalizando um caso em que o obsidiado (que cometeu assassinato), em desdobramento pelo sono, é levado a ficar frente a frente com o obsessor (a vítima), o perdão harmonizando ambos, por fim.

Cap 6 — Amparo fraternal — Narração de um homem vivendo os prazeres do mundo e de uma jovem pobre que para custear tratamento médico da mãe se une a ele. Os dois são doutrinados, durante o desdobramento pelo sono. Em conseqüência, retificam seu procedimento.

Cap 7 — Processo redentor — Trata do esforço da Espiritualidade para impedir processos de loucura. Nesse contexto, sobressai o valor da “prece intercessória”. Reafirma que o Espírito não retrocede em hipótese alguma, contudo as formas de manifestação do ser podem sofrer degenerescência (destrambelho dos elementos perispiríticos) — mongolismo, por exemplo.
NOTA SOBRE CHOQUE ELÉTRICO: Atualmente, são outros os conceitos sobre o tratamento por choque elétrico, que tiveram seu emprego consideravelmente restringido após o progresso da psicofarmacologia.

Cap 8 — No Santuário da Alma — Explana sobre a epilepsia, cujas causas, geralmente, situam-se nos descaminhos das vidas passadas e na vida presente, carreando interferências obsessivas, disfunções mentais, com reflexos perispiríticos, ocasionando transtornos orgânicos. A cura se dará pela reforma íntima, passes e principalmente a fé positiva — edificação espiritual, enfim.

Cap 9 — Mediunidade — Demonstra que, em mediunidade, o animismo não deve tomar o caráter inquisitorial, e sim, o educativo. A intuição pura é considerada a mediunidade mais estável e bela entre os homens.

Cap 10 — Dolorosa perda — Há impressionante descrição de um aborto, visto do plano espiritual: o perispírito do abortado, imantado ao corpo daquela que lhe seria mãe, promove tamanha onda de ódio que leva-a a uma imprevista e dolorosa desencarnação.

Cap 11 — Sexo — O amor é enaltecido, ao tempo que mostra como os descaminhos dos prazeres promíscuos levam à loucura. Conquanto demonstrando respeitosa posição à Medicina terrena (discorrendo sobre a escola freudiana da psicologia analítica), a Espiritualidade indica que os desequilíbrios sexuais são doença da alma.

Cap 12 — Estranha enfermidade — O texto elucida os conflitos da esquizofrenia (originária de sutis perturbações do perispírito), dos quais resultam um conjunto de moléstias variáveis e indeterminadas no corpo físico. Neste capítulo, de forma absolutamente inédita, é mostrado como a Espiritualidade provoca uma desencarnação, como providência compassiva, a benefício do desencarnante e dos seus familiares.

Cap 13 — Psicose afetiva — Traz-nos a emocionante lição de como a Espiritualidade amiga impede um suicídio (por merecimento) de uma jovem desiludida e humilhada no amor, impondo-lhe sono profundo, horas antes do lance fatídico. Desdobrada pelo sono, a jovem é doutrinada, vindo a desistir do suicídio, por compreender que as dores da experiência humana, são “dons do Divino Suprimento” e que por vezes há “vantagens que só podem ser encontrados na solidão”...

Cap 14 — Medida salvadora — Nova lição transcendental: a Espiritualidade amiga ministrando ajuda, através providência provisória, mas drástica: provoca desarmonia no corpo de um alcoólatra, a benefício do próprio (!) e também visando amparar à esposa e dois filhinhos.
Põe a descoberto como nos ambientes menos dignos há “multidão de entidades conturbadas e viciosas” (Espíritos desencarnados), em triste sociedade, por afinidade. Vê-se ali, em perfeita simbiose mental:
- encarnados/alcoólatras → → desencarnados (também alcoólatras)
- dançarinos (voltados para o primitivismo do ser, embalados por música inferior e pela viciação dos sentidos, com gestos ridículos, gritos histéricos, em “atitudes que muitos símios talvez se pejassem”) → → correspondendo inconscientemente a desencarnados que a isso os induziam, fazendo-lhes companhia-sociedade invisível...

Cap 15 — Apelo cristão — Discorre sobre uma assembléia de encarnados (religiosos católicos romanos e protestantes das Igrejas reformadas), os quais, desdobrados pelo sono, em companhia de desencarnados, recebem valiosa lição-alerta sobre os ranços do dogmatismo e da divisão humana da fé. É enaltecida a união fraternal vivenciada pelos heróis anônimos que transitaram nas aflições, dos então primeiros aprendizes da Boa-Nova. É mostrado o erro dos sacerdotes políticos que dividiram em várias escolas a “Religião do Amor Universal”, fundada por Jesus, do que resultaram os desvarios da separação por motivos de fé.

Cap 16 — Alienados mentais — A loucura é considerada como suicídio “habilmente dissimulado”, pela não resistência à dor e pela entrega (também sem resistência) à perturbação destruidora, que por fim, abre as portas da morte.
Nota: S.M.J., temos aqui uma inédita informação da Espiritualidade amiga, quanto à uma outra espécie de suicídio.
Recebemos fortes advertências neste capítulo:
- impaciência e tristeza são forças terríveis a desarmonizar a mente, perdurando por várias existências;
- a alienação mental é início da “descida da alma às zonas inferiores da morte”;
- quanto aos recém-nascidos ou os que na infância apresentam esse quadro, tal é reflexo de comportamento equivocado no passado, colidindo forte com as Leis Divinas.

Cap 17 — No limiar das cavernas — No “Baixo Umbral” (cavernas de sofrimento, no plano espiritual) existe “zona medonhamente sombria”, a tal ponto, que A.Luiz não teve permissão de nela se aprofundar, mas apenas a de permanecer no limiar daquelas cavernas, e assim mesmo, acompanhado de Instrutor espiritual. É citado o insólito caso de Espíritos de grande intelectualidade e poder mental, mas desprovidos de amor, os quais, por serem extremamente devedores das Leis Divinas, como passos iniciais de melhoria moral, eventualmente recebem determinação educativa de realizar tarefas laboriosas no seio da Natureza.
NOTA: Em “O Livro dos Espíritos”, questões 536 a 540, encontramos notícias sobre a ação de tais Espíritos, ação essa variável, na razão direta da evolução de cada um.

Cap 18 — Velha afeição — Este capítulo é de comovente sublimidade: A.Luiz reencontra e socorre o avô, a quem tanto amara quando criança e por quem tanto também era amado. Seu avô estava já há quarenta anos estacionado no “Baixo Umbral”. O reencontro de ambos é pungente. A beleza literária da narração só é superada pela exaltação da Lei do Amor.

Cap 19 — Reaproximação — Demonstra como a pobreza extrema, com trabalho educativo, imposta pela Espiritualidade protetora, pode ser reeducativa para as aspirações de duas pessoas interligadas por problemas de vidas passadas. No caso, é programado reencontro entre réu e vítima. Aceito por ambos esse reencontro, ficam a descoberto os imensos benefícios da bênção do perdão, trazendo-lhes felicidade.

Cap 20 — No Lar de Cipriana - É descrita essa benemérita instituição espiritual, onde incontáveis espíritos estagiam, aprendendo o reajustamento anímico, através o auto-reconhecimento, preparando-se para melhores condições de vida. Na verdade, tal instituição é “verdadeira oficina de restauração do espírito”.
“No Mundo Maior” tem como fecho magistral prece, exorando a proteção de Jesus.


PERSONAGENS CITADOS NA OBRA:

ANDRÉ LUIZ - é o Autor Espiritual. Permaneceu no Umbral por oito anos.
- 1° livro: “NOSSO LAR” – obra literária iniciando fecunda série, sempre pela psicografia de Francisco Cândido Xavier. Nesse livro, reporta como foi recolhido à Instituição Espiritual "Nosso Lar" (situada na psicosfera da cidade do Rio de Janeiro), por interferência de sua mãe.Com impressionante ineditismo, o livro narra particularidades do Plano Espiritual.
Graças à sua abnegação e trabalhos incansáveis de auxílio ao próximo, alguns anos mais tarde conquistou a faculdade da volitação.
Informa, ao fim do livro, que recebeu a comenda de "Cidadão de Nosso Lar".
André Luiz é um exemplo dignificante de auto-reforma e de como a conseqüente evolução espiritual traz intensos momentos felizes para todo aquele que ajuda ao próximo.
- 2° livro: "OS MENSAGEIROS" - reporta vários aprendizados que alcançou junto à equipe de auxiliares-aprendizes, no "Centro de Mensageiros", quando, após estágio e uma viagem à Crosta, teve oportunidade de pôr em prática as lições recebidas.
- 3° livro: “MISSIONÁRIOS DA LUZ" - aprimora os conhecimentos até então auferidos. Estagia com o Instrutor ALEXANDRE num recinto terrestre, onde se desenrolam inúmeras atividades mediúnicas.
- 4° livro: "OBREIROS DA VIDA ETERNA" - registra que é a primeira vez que integra equipe socorrista (de auxílio a desencarnações), pois até então fora estudante/aprendiz.
- 5° livro: “O MUNDO MAIOR” - agora, focaliza aspectos da vida no mundo espiritual e do intercâmbio entre desencarnados e encarnados, especialmente durante o repouso físico.
OBS: Citaremos a seguir os nomes dos demais personagens do livro "NO MUNDO MAIOR", colocando entre parênteses: (d) = desencarnado; (e) = encarnado, e os respectivos capítulo e página onde são pela primeira vez mencionados.
Edição consultada: 7ª.
CALDERARO (d) - 1/14 – Assistente. Especialista em atendimentos na Crosta Terrestre, na área de “Psiquiatria Iluminada. Com A.Luiz, irá agregar-se aos trabalhos do Instrutor Eusébio.
EUSÉBIO (d) - 1/14 – Instrutor. Abnegado protetor de necessitados, de mentes desequilibradas. Superintendente da Organização Espiritual em zona intermediária. Semanalmente vai à Crosta Planetária, onde, em região adequada, presta esclarecimentos a espíritos encarnados, desdobrados pelo sono, relativamente espiritualizados, dedicados ao socorro de sofredores.
(Obsessor e obsidiado) – 3/43 – Dois enfermos mentais: um desencarnado, outro encarnado;
CIPRIANA (d) - 3/64 – Espírito elevado. Orientadora aos serviços de socorro no grupo atendido por Calderaro.
PEDRO (e) – 5/69 – É o obsidiado citado no Cap 3. Casado. Tem 5 filhos. Enfermo, hospitalizado. Cometeu assassinato. Desdobrado pelo sono, vê-se frente à frente com a vítima.
CAMILO (d) – 5/72 – É a vítima de Pedro. Há vinte anos o atormenta, obsidiando-o.
NENECO, CELITA, MARQUINHOS, GUILHERME (e) – 5/74 – Filhos de Pedro.
CÂNDIDA (e) – 5/79 – A breve tempo desencarnará. Espírito sereno. Tem grandeza de alma.
JULIETA (e) - 6/82 – Filha de Cândida. Em desespero com a doença da mãe entregou-se a atividades menos dignas. Está prestes à loucura e de adquirir doenças graves.
PAULINO (e) – 6/83 – Parceiro de Julieta. É doutrinado durante o desprendimento do sono.
(Enfermo) (e) – 7/98 – Criança de 8 anos, muda, surda, não anda, não se senta, vê mal. Todavia, psiquicamente, tem a vida de um sentenciado sensível.
NOTA: Temos observado na “série A.Luiz” que esse Autor Espiritual, quando cita casos graves, dolorosos, não dá o nome dos personagens, nem utiliza nomes fictícios; tudo indica que isso se deve à observância da ética (poderia constranger algum leitor com esses mesmos nomes...), mas também configura um ato de caridade, resguardando a identidade de quem passa por tal expiação.
MARCELO (e) – 8/108 – No passado teve vigorosa inteligência, mas vivenciou intensas paixões e excessos de autoritarismo. No presente, tem acessos epilépticos (geralmente por enfermidade da alma, do que resultam reflexos/convulsões orgânicas.
NOTA: A.Luiz menciona, de passagem, que “algo mais forte” do que o conhecimento cordial une Marcelo a ele. Na seqüência do texto, não é adicionada nenhuma explicação a respeito.
EULÁLIA (e) – 9/131 – Médium de psicografia. Dedicada. No entretanto, não oferece sintonia integral ao Espírito comunicante (médico desencarnado, protetor).
CECÍLIA (e) – 10/141 – Jovem rica, órfã de mãe, grávida. Provoca aborto. Em conseqüência, vem a desencarnar.
LIANA (e) – 10/144 – Enfermeira que realizou o aborto de Cecília.
FABRÍCIO (e) - 12/169 – Idoso. Enfermo. Esquizofrênico. No limiar da loucura. O passado delituoso açoita-lhe a mente, provocando estragos orgânicos.
INÊS (e) – 12/177 – Esposa dedicada de Fabrício.
FABRICINHO (e) – 12/177 – Neto de Fabrício. Tem 8 anos. É o ex-pai de Fabrício.
ANTONINA (e) – 13/180 – Pobre. Órfã de pai e mãe. Ajudou Gustavo a formar-se. Amava-o. Após, foi humilhada por ele. Pretende suicidar-se. O Plano Espiritual impedirá.
GUSTAVO (e) – 13/181 – Formou-se médico com ajuda de Antonina. Deixou-a, após.
MARINA (d) – 13/184 – Espírito protetor. Foi mãe de Antonina.
MÁRCIO (d) – 13/184 – Espírito protetor. Ligado a Antonina, desde séculos.
ANTÍDIO (e) – 14/192 – Alcoólatra. Quase à loucura. É auxiliado pela Espiritualidade amiga, com providência drástica: enfermidade!
“seu” JOÃO (d) – 16/214 – Guarda-enfermeiro de instituto espiritual para desencarnados pela loucura.
CLÁUDIO (d) – 18/230 – Avô de A.Luiz. Padecendo no “Baixo Umbral” em conseqüência do apego ao dinheiro na última encarnação, finda há 40 anos.
ISMÊNIA (e) – 18/232 – Citada por Cláudio, como sendo-lhe irmã, no passado.
NICANOR (e) – 19/240 – Noivo da jovem ora reencarnada (Ismênia).

TERMOS POUCO USADOS:

A título de colaboração, registramos abaixo o significado ou origem de alguns termos pouco usados, que eventualmente aparecem ao longo do texto de “No Mundo Maior”:

TERMOS CAPÍTULO PÁGINA S I G N I F I C A D O
ajoujam 2 34 unem (do verbo ajoujar = unir, ou ligar, moralmente)
grabato 6 83 leito pequeno e pobre; catre
aljofrada 7 104 orvalhada (do verbo aljofrar = orvalhar)
abluir 8 114 lavar, purificar por meio da água; purificar-se
Cérbero 9 124 cão de várias cabeças que guardava a porta do inferno (da mitologia grega)
à balha 9 135 à baila; a propósito
craveira 9 135 medida; tabela
infrenes 10 146 desordenados; sem freio
atro 10 151 negro; escuro
socavão 11 159 esconderijo; abrigo; lugar seguro
caliginoso tijuco 11 159 tenebroso charco
engrazado 12 174 do verbo engrazar = enfiar (contas) em fio de metal
a flux 13 189 aos jorros; em grande quantidade
favônio 15 202 vento considerado propício, que trazia felicidade
moloque 15 203 réptil; lagarto espinhoso
atascado 15 207 atolado; enlameado
mentecaptos 16 211 que perderam o uso da razão
vezo 16 211 qualquer hábito ou costume (vicioso ou criticável)
morbo 16 216 estado patológico; doença
modorravam 16 217 Estavam em modorra (sonolência, em certos doentes)
messe 16 217 seara em bom estado de se ceifar
precitos 17 222 réprobos; condenados; malditos
Érebo 17 225 inferno; abismo
uxoricida 17 226 aquele que assassinou a própria esposa
carantonhas 18 228 caras grandes e feias; caretas; carrancas
lesto 18 231 ágil; ligeiro; lépido
à sorrelfa 18 235 disfarçadamente (para enganar)
Se engrimponavam 20 247 (o mesmo que: se engrimpavam) = subiam às grimpas; se ensoberbeciam
estrênua 20 248 valente; corajosa; zelosa

RIBEIRÃO PRETO/SP - Em 12.Fev.2004 Eurípedes Kühl – Responsável
SOCIEDADE ESPÍRITA ALLAN KARDEC
Rua Monte Alverne, 667 – Ribeirão Preto/SP


Dor e sofrimento


Estamos lá, achando que a vida é perfeita, que tudo é alegria, sucesso, vencer desafios, atingir metas. Traçamos o plano e ele está sendo seguido à risca, tudo se encaixa, tudo está saindo como queríamos.


E, de repente, tudo desaba.

Um detalhe inesperado acontece. Nunca previsto, não estamos preparados. Não sabemos o que fazer e tudo fica confuso. A vida colorida passa a ser em preto e branco; a trilha sonora da nossa vida passa a tocar músicas tristes e reflexivas.

Surge a dor, exteriorização do sofrimento que estamos sentindo em nossa alma.

E tudo vira desencanto.

Acordar é doloroso. Mal nos damos conta de quem somos e já vem aquele "frio na barriga" e aquela dor no peito, em algum lugar que não sabemos precisar, porque não é bem no corpo.

Dormir passaria a ser um bom refúgio, se não fossem os pesadelos que nos afligem, nos deixando em situações hipotéticas em que nos encontramos mais impotentes diante de tudo aquilo do que quando acordados.

Pronto, a vida não é feita só de alegrias e felicidades. Descobrimos.

Tudo fica confuso, mas, no fundo, sabemos que alternativas clássicas existem. Ou enfrentamos, ou nos desesperamos, ou desistimos e aceitamos.

E nem sempre há solução para um problema. E aí o enfrentar acaba se desdobrando na solução desistir e aceitar.

Há aquelas fórmulas de quem já passou ou pensou sobre isso, como o modelo de Kübler-Ross, que trata dos cinco estágios pelos quais passam as pessoas que lidam com a perda, o luto ou a tragédia: (1) a negação e o isolamento ("Isso não pode estar acontecendo."), (2) a raiva ("Por que eu? Não é justo.") (3) a negociação ("Vamos achar um meio-termo."), (4) a depressão ("Tudo é uma droga mesmo. Desisto.") e (5) a aceitação ("Tudo vai ficar bem.").

Mas o fato é que perdemos a fé em tudo e em todos. Tendemos a nos isolar mesmo, a nos retrair.

Por que aquilo aconteceu se somos tão bonzinhos, não fazemos mal a ninguém? O que fizemos? Por que comigo?

E isso é um momento pelo qual quase todo mundo passa ou vai passar. Algumas pessoas talvez não, pode ser que só tenham alguns pequenos problemas e que podem ser resolvidos com a disciplina e esforço. Mas muitas pessoas passam por esses momentos de intensa dor no fundo do seu ser.

E aí chegamos naquela dúvida: só procuramos Deus quando estamos bem e esquecemos Dele na hora da crise ou o negamos enquanto estamos bem e só lembramos Dele na hora grave?

Algumas pessoas pensam que Deus não existe e isso piora o problema, pois não há onde buscar conforto.

Algumas pessoas se desesperam e chegam a tirar suas vidas.

Outras morrem por dentro, mesmo que apenas parcialmente.

A maioria gostaria que a vida fosse um filme em que podemos voltar atrás e mudar as coisas para ter um final feliz.

Mas, como disse Chaplin, a vida não permite ensaios. E nem podemos retroceder a "cena". O que está feito, está feito. Gravado para sempre na história de nossa vida. Só podemos mudar daqui em diante e, mesmo assim, algumas coisas não podem ser mudadas.

Isso é o que torna a vida tão singular, pois, ao que parece, não temos garantia de nada e, de repente, tudo pode mudar sem nosso mínimo controle.

Pode ser lugar comum, mas quando isso aconteceu em minha vida não enxerguei outra opção senão buscar consolo nas palavras que Jesus nos deixou nos Evangelhos. Me pareceu que algo errado eu fiz, pois Deus é justo e ninguém sofre por acaso. O que me restou? Buscar mudar o que eu pude e aceitar o que não me foi possível, passando a atentar mais para os meus erros até então ocultos, valorizando um comportamento mais correto, justo, caridoso com as outras pessoas, pois se eu sofro muitas outras pessoas podem estar sofrendo também e eu não me preocupava muito com isso.

Então, a dor e o sofrimento nos tornam mais humanos, mais conscientes. Às vezes, a dor serve para nos despertar de um "estado automático" em que estávamos e nem sabíamos. Se for encarada como uma possibilidade de aperfeiçoamento, a dor pode educar, engrandecer nossa alma e nos fazer ter mais fé em Deus, pois Ele não permite nada para o nosso mal, mesmo quando necessitamos de uma corrigenda ou outra.

A vida é aprendizado e evolução. Algumas vezes podemos aprender pelo amor, outras pela dor. Se não atentamos para os detalhes, a dor vai nos mostrar onde precisamos melhorar.

Mesmo se houver uma perda importante, que parece sem razão, uma tragédia sem sentido, aquilo não é punição alguma, só um fato a ser vivenciado, aprendido, talvez até mesmo para aprendermos a valorizar mais a convivência com as pessoas. Deus sabe o que é melhor para nós; não duvidemos disso.

Nessas horas, o ateu sofre mais. Vai precisar de um refúgio na caridade alheia, pois não acredita que as coisas estão em ordem e que há um Criador que controla cada milímetro do Universo.

Mesmo se Deus não existisse, o que digo apenas para argumentar, ainda assim eu preferiria acreditar que Ele existe e que eu devo ser melhor do que sou, devo ser uma pessoa melhor ao lidar com os meus semelhantes e com todos os seres que habitam o mundo. Porque, se no final Deus não existir e nem houver vida após a vida, pelo menos eu terei sido uma pessoa melhor do que eu podia ser se não acreditasse em Deus.

E essa fé em que as coisas estão em equilíbrio nos ajuda a passar pelas "pedras" do caminho, a vencer a dor e a aprender com ela, nos tornando pessoas melhores.

É certo que, se fosse possível escolher, ninguém ia querer aprender através da dor. Mas às vezes é só o que nos resta.

Jesus disse: "Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados. – Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados. – Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino dos céus." (S. MATEUS, 5:4, 6 e 10.).

Sabia Ele que o sofrimento acaba conduzindo a um estado melhor. Através dele o ser vai se "lapidando", caminhando para a perfeição.

Se a dor nos atingir, saibamos enfrentá-la e aprender com ela. É sinal de que algo não vai bem e precisamos aprender algo mais. Aceitemos com fé em Deus e no Nosso Mestre Jesus e aprendamos a lição, lutando para vencermos o desânimo e a revolta e para vencermos o desafio que nossa vida nos impõe, muitas vezes por nossa própria escolha.

Deus não abandona seus filhos. Não sofreremos mais do que podemos aguentar e nem menos do que a lição reclama.

E saibamos lutar para vencer a dor e a dificuldade, não nos entregando à passividade e à aceitação quando a vida reclama nossos esforços. Enfrentar um sofrimento não quer dizer aceitar sem lutar pelo melhor possível. Aceitar quer dizer compreender que há coisas que não poderemos mudar. Mas devemos melhorar e mudar aquilo que estiver ao nosso alcance, pois certamente Nosso Pai não quer ver seus filhos passíveis, sem lutar pela felicidade alcançável, aquela que só depende do esforço de cada um.

Não pensemos que ser Cristão e Espírita é aceitar tudo sem "luta". Não é. Devemos trabalhar e batalhar por nossa felicidade onde estivermos. Aquilo que não pudermos mudar através do nosso esforço deve ser aceito como um fato consolidado de aprendizado necessário. Mas o resto reclama nossa luta, nosso trabalho para melhorar, evoluir e aprender. A ordem da vida é o amor, mas também é o trabalho e o esforço de cada ser.

Confiando em Deus, seguindo o que Jesus nos ensinou, aceitando os acontecimentos que não podemos mudar e lutando para vencer cada dificuldade que se nos apresenta em nossas vidas, alcançaremos, um dia, um estágio evolutivo, mais próximos de Deus, em que só aprenderemos através do amor e do trabalho, sem o "remédio amargo" da dor.